Monday, October 02, 2006

Será preciso ter compaixão?
Será preciso fazer uma revolução?
Será que eu sou passível de qualquer definição?

Não, o efêmero é um agente que tem assombrado
Minhas pequenas e belas ilusões!

(Psicografia?
Quando é que alguém respondeu pelos próprios atos?)

Desfiz a cama em que me deitei com você...
Que triste! Gostaria de ter armado campanha
Em seu jardim e ter perguntado às suas plantas
Como foi seu dia e o que você comeu.
E ter dormido, no relento, procurando ouvir
Seus passos, sua respiração, seu marasmo.

Agora já não quero e nem posso...
E que não me venham assombrar os fantasmas
Das antigas paixões, que me deixaram dores.

Minha morada descascou, a tinta perdeu a cor.
O bolor se alastrou e eu começo a me acostumar
Com o verde úmido destas paredes mudas.

O que fazer, agora, com o tempo?
Anda passando lento... E as cores já secaram.
A turbulência se foi.
Pergunto se me levou embora a poesia,
Que me vinha em sobressaltos...
Mas eis que uma pessoa seca e fria
Consegue escrever versos vagos.

Heim? Quem são estas pessoas que me falam,
Quando em quando?
Sãos meus amigos, meus amores?
Creio que não.

Vontade de ir embora?
Ciclo?
Suicídio?
Transmutação?
Ora, que desperdício de piadas!

Tuesday, August 22, 2006

Um rodopio, uma noite de lua cheia...

O acaso existe, quando o vento balouça um encontro
De parceiros de dança?

E quem vai dizer

Se erramos,

Quando aquela vergonha

Vinha rasgando a tarde arrastada...

Não queria macular

Estas tuas asas de anjo!

Mas quem é que vai,

No futuro distante,

Dizer que tudo, ou quase tudo,

Se alastrou sob o signo do erro.

Peço perdão

Perante teus olhos marejados...

Sempre foram lindos, sempre serão.

Sunday, May 14, 2006

Eu tenho medo...

Eu tenho medo das coisas ditas
E das não-ditas...
Tenho medo do temível intervalo
Entre elas...
Daquilo que se perde, desarranja,
Entre o caminho da palavra
Do interlocutor para o receptor...
Tendo medo do velado e do exposto.

Eu tenho medo dos fantasmas que desacredito,
E dos espectros criados, por debaixo do edredon.

Tenho medo de todas as minhas facetas,
Que vêm me cutucar sempre com um algo menos, algo mais.

Eu tenho medo do Outro,
E da salvação que eu lhe concedo...
Tenho medo da minha fraqueza
Em tentar me configurar forte.
Tenho medo do azar, da morte,
Pois eu ando procurando minhas cruzes,
Abrindo certas feridas...

Tenho medo do meu martírio,
Tenho medo por ser algoz...

Eu tenho medo de mim mesma,
Eu temo o medo por si só...

Friday, April 07, 2006

Um certo expurgo destes estados lastimáveis
Se ampara na pressão da caneta, no papel,
Pervertendo a certeza da palavra...
Escorregue para dentro da lacuna
Entre o lodo e os girassóis;
Entre o umbral e a primavera...
Veja minha estampa de seqüelas.
E me diga, com sarcasmo, que o mar
Não está para peixes...
Ora, quando foi que ele esteve?

Quando foi que eu pude me desculpar,
Enquanto minha culpa era uma bruma fina?
Mas se o mundo me faz entortar, calada,
Então eu me ajoelho e peço perdão
Para um ouvido surdo no meio da turba.

(Vou andando pelas ruas,
O mundo anda se fechando,
Sobra-me o espanto
Destes ocos cantos
E das sombras cinzas
Fenomenais, que se erguem
Feito estátuas, na minha frente,
Passo em rente a um estranho
Erguer de muros frios e bolorentos...)

Minha mãe me traiu quando me pariu;
O meu pai, quando morreu!...

Ah, veja meu jardim mirrando,
A cada sol que se levanta...
Onde foi párar meu sono?
Onde foi párar minha vida?
Quem é esta pessoa, que me olha
E pergunta: Quem é você?
Ela me assusta, decerto,
E me é familiar...

Noite, que hora sufocante...
Me empresta algo de terno,
Me dá algum tranquilizante.

Monday, April 03, 2006

Estas crepitantes formas de nostalgia:
Um dia, abriu-se a ferida
E o mundo desfez o nexo...
Reluzia, trêmulo, teu espectro fugidio,
Na luz da rua, que adentrava meu quarto,
Na dança da cortina, embalada pelo vento...

Decerto, era tarde... A madrugada entoava
Suas canções de solidão e desespero.
O escuro arrefecia as horas não dormidas.
Eu, em franco delírio semi-onírico,
Gritava teu nome, mil vezes repetidas,
E o silêncio testemunhava a vertigem
Destes mantras sacramentados pela
Profanação de um paraíso perdido.
Eu caía pelas alturas vertiginosas
Do tique-taque do relógio não ajustado,
Eu pedia licença para não te contar
Que havia flores nos cantos e nos dedos,
Eu sentia medo deste sentimento
Escrito naquele sorriso grafado e estampado
Que reverberava no encalço dos meus passos...

Tenho licença poética para evocar certos nomes,
Recorrer à melancolia enquanto palavra;
Verter-me no choro, no soluço, na lamúria...

A sensação de que o sonho se dissipa,
Onde se abnega febrilmente a fantasia.
Procurava a caneta e o papel para prender
Tua presença em minha vida e te revivia,
Como um herói, nas parcas palavras escritas.
Fiz do silêncio um carnaval probabilístico,
Estilhacei-me em infindos cacos coloridos...
De manhã, me lembraria de meu nome,
E o pesadelo destas horas sem fim,
Dissiparia numa nuvem de fumaça,
Daquele último cigarro fumado,
Nos recônditos de meu mundo...
Têm certas horas, que ninguém mais vive:
O mundo converte-se em um estranho
Lugar entre o Vazio e o pleno de sentido..

Wednesday, March 29, 2006

Verbos Inventados

Quero caminhar, através das amplas veredas,
Saboreando os sentimentos sem alvo,
Que apertavam o peito de angústia.
Quero invocá-los com alguma dança,
Como um novo brincar colorido.
Quero os cheiros da infância:
A chuva no quintal, o doce no fogo.
Quero sentir a vontade das festividades
Que estão parcas, nos últimos tempos,
Como o prenúncio de algo que me espreita,
Calado, de olhos abertos, atrás de alguma porta
Que dará acesso ao farfalhar dos vestidos...

Quero caminhar até o sol se pôr,
Procurando senhas em nuvens de sonhos...

Tuesday, March 28, 2006

As Uvas e o Vento

"(...) Tu perguntas o que a lagosta tece
Lá embaixo...
Com seus pés dourados.
Respondo que o oceano sabe.
E por quem a medusa espera,
em sua veste transparente?
Está esperando pelo
tempo, como tu.
Quem as algas apertam
Em seu abraço... perguntas...
Mais firme que uma hora e
Um mar certos? Eu sei.
Perguntas sobre a presa
Branca do narval...
E eu respondo cantando como
Unicórnio do mar, arpoado, morre.
Perguntas sobre as plumas do rei
Pescador...
Que vibrou nas puras
Primaveras dos mares do sul.
Quero te contar que o oceano
Sabe isto: que a vida...
Em seus estojos de jóias,
É infinita como areia,
Incontável, pura; e o tempo,
Entre as uvas cor-de-sangue...
Tornou a pedra dura e lisa,
Encheu a água-viva de luz...
Desfez o seu nó, soltou
Seus fios musicais...
De uma cornucópia feita
De infinita madrepérola.
Sou só a rede vazia diante dos
Olhos humanos na escuridão...
E de dedos habituados à longitude
Do tímido globo de uma laranja.
Caminho, como tu, investigando
A estrela sem fim...
E em minha rede, durante
A noite, acordo nu.
A única coisa capturada
É um peixe...
Preso dentro do vento
Investigando a estrela sem fim..."

- Pablo Neruda